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Autor(a):

Dr. Gilberto Amorim

Dr. Gilberto Amorim

Médico oncologista, Coordenador do Grupo de Oncologia Mamária da Oncologia D´Or, Ex-Chefe da Oncologia Clínica do HCIII INCA, Editor do Manual de Condutas de Câncer de Mama da SBOC e titular da American Society of Clinical Oncology (ASCO), Conselheiro científico da Fundação Laço Rosa.

Data do Post
04/12/2019
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Brasileiras tem câncer de mama mais cedo do que em outros países

Pesquisadores brasileiros analisaram os casos de câncer de mama que participaram do AMAZONA III, estudo que incluiu prospectivamente 2888 pacientes de 22 centros públicos e privados entre janeiro de 2016 e março de 2018. Dessas pacientes, 486 tinham 40 anos ou menos (17% do total). Entre as características que separam o grupo < 40 e > 40 foram encontradas mais pacientes com estádio III, tumores T3 e 4, GIII, HER2 positivas, luminais B e triplo negativas (RE, RP e HER2 negativos) entre essas pacientes mais jovens.

Importante destacar que em países desenvolvidos apenas cerca de 5-7% ou menos dos casos ocorrem em pacientes com 40 anos ou menos. E nesta coorte foram 17% (mais de 2,5x)! Este mesmo grupo de pesquisadores já havia mostrado, em estudos anteriores, que a idade média do diagnóstico no Brasil é de 53-55 anos contra 64 anos dos países desenvolvidos. E esta característica de mais casos entre as jovens ocorre em outros países da América Latina.

Entre os fatores de risco modificáveis chamou a atenção a maior proporção nessas jovens de mulheres que ingerem muita bebida alcoólica. Isso requer cuidado e medidas de estímulo a redução da ingesta de álcool. Os achados de estadiamento mais avançado e de características biológicas mais agressivas estão em linha com a literatura internacional, inclusive na menor proporção de mulheres cujo diagnóstico foi feito por rastreamento (26 vs 35,5%), já que a recomendação do Ministério da Saúde é para começar a fazer mamografia a partir dos 50 anos.

É controverso entre os especialistas se existe (e qual seria) um programa de rastreamento geral para esta faixa etária, exceção sendo feita para aquelas pacientes de alto risco em função de história familiar positiva, razão pela qual essas pacientes devem ser identificadas para iniciar mamografia mais cedo e eventualmente realizar ressonância magnética das mamas de rotina (ex.: pacientes mutadas para BRCA)

Os autores sugerem que sejam adotados programas específicos para estas pacientes jovens, pelo menos nos grandes centros de referência com foco em acesso à preservação de fertilidade, aconselhamento genético e testagem, apoio psico-social, cirurgias preventivas e reparadoras e equipes multidisciplinares preparadas para o melhor tratamento e o seguimento de longo prazo desta população crescente no Brasil.

Se extrapolarmos esses dados para as estatísticas nacionais geradas pelo Instituto Nacional do Câncer (Inca), estamos falando de cerca de 10 mil casos novos por ano, que é uma incidência bem maior do que outros tipos de tumores.

Estudos de Mundo Real como este são importantes para o maior entendimento de nossas características que podem inclusive ajudar no desenvolvimento de políticas públicas e privadas para este público alvo, além de estimular novas pesquisas para tentar entender as causas dessa maior incidência entre mulheres jovens e identificar o porquê dessas características mais agressivas.

Parabéns aos pesquisadores e o GBECAM pela iniciativa!

Fonte: Portal PEBMED