Voltar para listagem
Autor(a):

Dra. Sandra Gioia

Dra. Sandra Gioia

Dra. Sandra Gioia, mastologista do Inca e Coordenadora do Serviço de Mastologia do Hospital São Francisco na Providência de Deus, na Usina, iniciou em março de 2014 um Programa de Rastreamento Organizado de Câncer de Mama. Conselheira Científica da Fundação Laço Rosa.

Data do Post
27/09/2019
/

O que eu espero neste Outubro

Em várias partes de mundo, mobilizações sociais são realizadas para a conscientização do câncer de mama. Informações do tipo mais comum de câncer entre as mulheres são divulgadas: causas, fatores de risco, formas de prevenção, exames para diagnóstico precoce e tratamento adequado e em tempo hábil.

Enquanto nos países desenvolvidos, apesar da alta incidência, a mortalidade esteja em curva descendente, países de baixa e média renda como o Brasil, o número de casos novos e de óbitos por esta doença crescem a cada ano.

O aumento dos casos diagnosticados em estádio avançado e demora para início do tratamento podem gerar efeitos deletérios tanto para as pacientes quanto para o sistema de saúde do país. Para as pacientes, podem diminuir as chances de cura e do tempo de sobrevida, bem como, diminuir a qualidade de vida durante o tratamento. E, em razão da demora para se conseguir realizar o diagnóstico da doença, muitas pacientes de baixa renda acabam realizando exames necessários para diagnosticar o câncer na rede privada de saúde e arcam financeiramente com esses exames. É importante considerar, ainda, as consequências para o país, como o aumento de gastos devido a necessidade de tratamentos mais caros, complexos e prolongados para pacientes que poderiam ter sido diagnosticados com estadiamento nas fases iniciais da doença, além dos custos previdenciários decorrentes do prolongado afastamento dessas pacientes do trabalho.

Reconhecendo o impacto negativo desta situação, em 2012, o governo brasileiro emitiu a Lei No. 12.732/12 do Ministério da Saúde, ou a “Lei dos 60 dias”. Esta lei estabelece que o tratamento para qualquer tipo de câncer para os pacientes do sistema público de saúde deve começar no prazo de 60 dias a partir do diagnóstico definitivo.

Está disponível no site https://irhc.inca.gov.br do Ministério da Saúde, a última atualização dos dados de tempos para início do tratamento. Todas as Unidades Federativas tem pior desempenho no cumprimento da lei quando o diagnóstico é confirmado com biópsia extra-hospitalar, ou seja, quando é realizado antes da matrícula em Unidade Especializada para tratamento (um dos critérios para inserção da paciente na regulação e ser encaminhada para tratamento). Entre 2013 e 2017, o cumprimento da lei para câncer de mama no Brasil se deu, em média, em 65% dos casos (59 dias) para biópsias intra-hospitalar versus 35% (127 dias) para biópsias extra-hospitalar. E a análise ao longo do tempo, mostra o Rio de Janeiro como a Unidade Federativa com pior desempenho no país quando a biópsia foi extra-hospitalar. Infelizmente, o cumprimento da lei caiu de 17,4% (2013) para 6,4% (2017).

E existem diferenças de tempos para início de tratamento quando os casos são diagnosticados em estádio inicial, extra-hospitalar (média de 134 dias) e intra-hospitalar (média de 53 dias). E, quando são diagnosticados em estádio avançado, extra-hospitalar (média de 109 dias) e intra-hospitalar (média 50 dias).

Isto mostra que os casos diagnosticados antes de chegarem aos hospitais e os casos com estadio inicial estão sendo penalizados, pelos cuidados de saúde descoordenados e pelo déficit de vagas para tratamento cirúrgico presentes em todo Brasil, respectivamente.

O controle do câncer de mama é de responsabilidade do Estado e da Sociedade. E as Políticas Públicas vigentes no Brasil precisam ser resguardas para o bem das mulheres brasileiras. Uma lei tão importante como a “Lei dos 60 dias” precisa ser respeitada. Neste Outubro Rosa, eu espero que todos os profissionais da área da saúde e seus gestores repensem seus processos de trabalho para respeitar esta lei. E desejo que todas as mulheres brasileiras façam boas escolhas, conhecendo seus direitos e seus deveres. É tempo de, num esforço coletivo, melhorar o acesso aos cuidados em saúde mamária e, por conseguinte, salvar vidas.

Sandra Gioia

Conselheira da Fundação Laço Rosa e Vice-presidente da Sociedade Brasileira de Mastologia – regional Rio de Janeiro